Professores Pioneiros

Em 1959, Brasília contava com mais de 100 professoras primárias, 4.682 crianças matriculadas, em 18 escolas primárias e 3 jardins de infância. Para administrar o sistema educacional nascente, foi instituída a Comissão de Administração do Sistema Educacional de Brasília, CASEB, em 2 de dezembro do referido ano, conforme o Decreto nº 47.472.

Indicado pelo Ministério da Educação e Cultura para o cargo de Diretor Executivo deste órgão, o Professor Professor Armando Hildebrand contava com assessores e coordenadores de ensino primário, de ensino médio e de educação física e recreação. Entre as funções da CASEB constavam: propor planos de trabalho e de aplicação de recursos, coordenação de atividades do sistema educacional, providenciar boa administração das escolas e o incremento das atividades escolares, movimentar recursos financeiros, celebrar contratos especiais de prestação de serviços, determinar as tarefas a serem executadas pelo pessoal remunerado por serviço prestado, prestar contas das despesas efetuadas e submetê-las à Comissão Deliberativa.

Segundo o Professor Armando Hildebrand, a CASEB

foi criada por um decreto que instituiu a Comissão de Administração do Ensino em Brasília, que era uma atividade, um trabalho provisório, até criar-se no Distrito Federal, a Secretaria de Educação. (...) Havia um plano básico, de criação do ensino, instalação da educação em Brasília, elaborado pelo Professor Anísio Teixeira, um dos auxiliares dele. Esse plano, o plano piloto previa as escolas classe e a escola parque, não é? Que é uma tese que ele defendia e já estava aplicando na Bahia, na escola parque da Bahia, e era para manter o aluno o dia todo ocupado em seu processo de aprendizagem, um período ele ia para a escola classe receber a parte teórica, pedagógica etc., o outro período ele ia para a escola parque, aprender atividades aprender Artes, estudar, exercitar esporte etc.

No início de 1960, logo após a criação da CASEB foi realizado o concurso nacional para seleção dos primeiros professores de ensino médio e primário. Entre estes, esperava-se complementar o quadro de professores atuantes da NOVACAP selecionados anteriormente por meio de entrevistas e estágio docente.

O edital de convocação anuncia a seleção de professores nos seguintes termos:

“Para a organização do sistema educacional de grau elementar e médio em Brasília, o Ministério da Educação e Cultura está selecionando professores, conforme as seguintes orientações gerais; A escolha de professores destinados à escolas primárias e a jardim de infância será baseada nos elementos fornecidos pelo formulário anexo, no resultado da prova escrita e de entrevista com o candidato. Os professores escolhidos firmarão contratos de prestação de serviços regidos pela legislação trabalhista e perceberão salário mensal entre Cr$ 15.000,00 e Cr$ 25.000,00. Os professores selecionados receberão passagem para si e sua família, ajuda de custo para sua instalação em Brasília e terão direito à residência mediante pagamento de aluguel acessível. O ensino primário e médio serão gratuitos para seus filhos. Os professores estarão obrigados a um mínimo de 6 horas diárias de trabalho, o qual constituirá em ensino, preparo das aulas e de material didático na própria escola, orientação do estudo dirigido, participação em seminários, atividades extraclasse e outras, decorrentes da função docente”.

Centenas de jovens professores de todo o país compareceram às provas e entrevistas realizadas no Rio de Janeiro. Os sessenta professores aprovados para o ensino médio apresentaram-se em 08 de abril de 1960, para realização de estágio e treinamento em Brasília, no período de 08 a 17 de abril do mesmo ano. Os “60 de 60” foi como ficaram conhecidos os 60 candidatos aprovados neste concurso.

Em 19 de abril de 1960 foi inaugurado, em caráter provisório, o primeiro Centro de Ensino Médio, nominado “CASEB”, com aula inaugural proferida pelo presidente Juscelino Kubitschek. Nas suas instalações funcionaram cursos secundários incluído o curso normal. Segundo depoimento da Professora Neusa França: Brasília não tinha absolutamente nada, era lama e poeira. Então nós somos desbravadores mesmo, não é? Eu sou franca. (...) E nós viemos para cá sem saber nem mesmo aonde iríamos ficar. Ficamos lá naquelas quadras 400 e tanto porque não havia lugar (...) Brasília tem uma educação bem diferente da que se fazia nos outros estados. Então muitos professores vieram assim curiosos, querendo ver como seria a educação em Brasília.

Entre as escolas pioneiras criadas, em conformidade com o Plano das Construções Escolares de Brasília, cite-se o Centro de Ensino Médio Elefante Branco, inaugurado no dia 22 de abril de 1961 para onde foram transferidos os alunos do CASEB.

A Associação de Professores Primários foi criada em 27 de agosto de 1961, tendo como presidente o Professor Eldonor Pimentel. Sua criação deu-se principalmente devido às promessas feitas ao professores pioneiros, em relação à moradia que lhes seria concedida, e não cumpridas pelo governo. O movimento por moradia liderado pela Associação favoreceu a distribuição de casas aos docentes. Segundo o depoimento do Secretário Geral da primeira diretoria da Associação, Professor Fábio Bruno, foi possibilitada a sua atuação, junto à assessoria do presidente João Goulart, no sentido de defender a causa perante o grupo encarregado da distribuição das residências. A instituição se tornaria o embrião do Sindicato dos Professores do Distrito Federal.

Outra importante escola pioneira foi a Escola Normal de Brasília que funcionou, desde 1960, nas dependências do Colégio CASEB e, posteriormente, do Centro de Ensino Médio Elefante Branco, CEMEB. Sua sede própria data de 1970, tendo sido inaugurada com a presença do então Ministro da Educação Tarso Dutra e outras autoridades. Seu projeto arquitetônico, de autoria do arquiteto Germano Galler, atende à filosofia da educação adotada por Anísio Teixeira para o desenvolvimento de um currículo escolar abrangente de uma instituição que funcionaria em tempo integral. Localizada numa área de 18.000m², tendo 12.000m² de área construída, a Escola Normal de Brasília, concebida para atender 1.000 alunos, possui 137 dependências. A Escola Normal de Brasília inspirou-se no modelo de escola de John Dewey, em Chicago, como um centro permanente de pesquisa e experimentação pedagógica. Nela, foram idealizadas quatro unidades:

  1. laboratório primário;
  2. laboratório jardim;
  3. laboratório creche; e
  4. laboratório formação (normal).

As inovações pedagógicas estavam presentes desde as instalações sanitárias, laboratórios, salas de repouso, gabinetes médico-odontológicos e de enfermagem, cantinas. Os laboratórios de biologia, por exemplo, possuíam plataformas externas para a colocação dos biotérios e eram equipados com dispositivos de proteção contra incêndio e explosão. Havia, ainda, quatro conjuntos de quatro salas, divididas por divisórias móveis, removíveis, que, além de possuírem isolamento acústico, podiam ser transformadas em salões, o que permitia agrupar atividades didáticas. O auditório era uma área de uso múltiplo, com um palco, camarins e dispositivos para cenários, assim como cabine de projeção equipada com projetores de 16 e 35mm, mesa de comando e distribuição de som e luz. As salas de aulas possuem janelas envidraçadas, na sua maioria voltadas para os jardins.

Paralelamente à construção das primeiras escolas previstas no Plano de Construções Escolares de Brasília, surgiram escolas rurais para atender aos filhos de trabalhadores do campo, muitas das quais, inclusive, com o propósito de profissionalização na área agrícola.

Destaque especial: no acervo do Museu da Educação do Distrito Federal, diz respeito aos documentos que compõem o dossiê Paulo Freire. Brasília sediou o Projeto Nacional de Educação de Jovens e Adultos, financiado pelo governo federal e desenvolvido com a metodologia de alfabetização proposta pelo eminente educador, experiência pedagógica implantada no Gama.